sábado, 15 de novembro de 2008
Espelho
tenho mais idade
do que tenho anos.
Por baixo dos panos
imponho, castigo
sou bruxa e mendigo
um conto-de-fada.
Já não há mais nada
além do reflexo
confuso e complexo
daquela menina.
Mas cumpro esta sina:
por este caminho
humano sozinho
sou verso sem rima.
(Se pisco os olhos, meu reflexo também pisca; mas se levanto a mão direita, ele levanta a esquerda).
sábado, 1 de novembro de 2008
Eu Quero Ser uma Flor
Querido,
Escrevo a você porque cansei de conversar com o vazio e preciso cortar este silêncio. Escrevo a você porque eu não me entenderia. Escrevo a você porque você é-me de fora. E porque preciso contar meu segredo e sei que você nunca me lerá. Mas escrevo. E é esse semi-nunca que me conforta.
Acho que começa desse jeito: há um verso de uma música interpretada pelo Cazuza que não me deixa mais em paz. É assim: Eu quero ser uma flor nos seus cabelos de fogo... Sei, provavelmente são dois versos... Mas não é lindo? Eu – quero – ser – uma flor – nos teus – cabelos – de fogo. Dá até vontade de pintar meus cabelos de novo, mas não. No fundo, apesar de tudo, eu sempre fui castanha. Não: nem loira, nem morena, nem ruiva. Sempre fui castanha, não acha? Mas você não entende nada, nem de cabelos e nem de cores. E nem de mim.
(Ou, talvez, entenda tudo, eu é que não sei nada, você me assusta com essa mania de (parecer) saber-me. “Decifra-me ou devoro-te”, diz eu-esfinge, sabendo que sou um enigma fácil, quase infantil, mas pedindo pedindo pedindo, em silêncio, que você se confunda com o castanho de meus olhos – que não são azuis, nem verdes, nem negros, mas castanhos –
e permita-se me engolir-te...).
A gente acha que melhora, mas é mentira. Cada lágrima de choro é uma gota do céu. Cada gota de choro é uma lágrima do céu. Eu achava que fossem estrelas, mas não são. Não há mais espaço para palavras dentro de mim. Eu acho que choro palavras... (Eu acho que choro o seu nome.)
“O que te escrevo continua e estou enfeitiçada”*. Mas sabe de uma coisa, meu amor? Eu quero quero quero – eu quero ser uma flor.
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*Clarice Lispector in Água Viva.