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domingo, 9 de maio de 2010

As Palavras do Coração

Com carinho, a resposta a uma Confissão

Menina,
por favor, não se aflija com o meu aparente não-estar. Confesso que me escondo dentro de seus sonhos para melhor poder ouvir os seus suspiros em verso, suas falas em dança: a companhia inocente de sua solidão. Mas não é para te fazer sofrer, menina, não é. Prometo que volto e devolvo suas asas, menina, e as nuvens se abrirão brilhando estrelas para te ver, de mãos dadas, passar. Prometo que volto, menina, para abrir seu caminho no meio do mundo em tapete vermelho, que é para combinar com as flores em seu vestido de festa, com o carinho em seus olhos de moça, com a felicidade te fazendo mulher.
Lembre-se, menina, que suas lágrimas marcam seu rosto sem marcar caminho, e que é o barulho cantante de seu riso que me orienta em sua direção. Siga tranqüila sua estrada de chão, sem medo de falsas direções, que, quando o destino me trouxer de volta, fugiremos juntos do tempo que me levou.

sábado, 1 de novembro de 2008

Eu Quero Ser uma Flor

Querido,


Escrevo a você porque cansei de conversar com o vazio e preciso cortar este silêncio. Escrevo a você porque eu não me entenderia. Escrevo a você porque você é-me de fora. E porque preciso contar meu segredo e sei que você nunca me lerá. Mas escrevo. E é esse semi-nunca que me conforta.

Acho que começa desse jeito: há um verso de uma música interpretada pelo Cazuza que não me deixa mais em paz. É assim: Eu quero ser uma flor nos seus cabelos de fogo... Sei, provavelmente são dois versos... Mas não é lindo? Eu – quero – ser – uma flor – nos teus – cabelos – de fogo. Dá até vontade de pintar meus cabelos de novo, mas não. No fundo, apesar de tudo, eu sempre fui castanha. Não: nem loira, nem morena, nem ruiva. Sempre fui castanha, não acha? Mas você não entende nada, nem de cabelos e nem de cores. E nem de mim.

(Ou, talvez, entenda tudo, eu é que não sei nada, você me assusta com essa mania de (parecer) saber-me. “Decifra-me ou devoro-te”, diz eu-esfinge, sabendo que sou um enigma fácil, quase infantil, mas pedindo pedindo pedindo, em silêncio, que você se confunda com o castanho de meus olhos – que não são azuis, nem verdes, nem negros, mas castanhos –

e permita-se me engolir-te...).

A gente acha que melhora, mas é mentira. Cada lágrima de choro é uma gota do céu. Cada gota de choro é uma lágrima do céu. Eu achava que fossem estrelas, mas não são. Não há mais espaço para palavras dentro de mim. Eu acho que choro palavras... (Eu acho que choro o seu nome.)

“O que te escrevo continua e estou enfeitiçada”*. Mas sabe de uma coisa, meu amor? Eu quero quero quero – eu quero ser uma flor.


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*Clarice Lispector in Água Viva.