terça-feira, 29 de julho de 2008

Um Minuto de Silêncio

... e não ouvi mais nada. Não, eu não fiquei surda, só entrei naquela tal câmara anecóica – “espaço de silêncio absoluto, sem nenhuma reverberação” segundo a plaquinha ao lado da porta – que faz parte da exposição Bossa na Oca, lá no Parque Ibirapuera. Mas, como vocês devem saber, o silêncio, primo do imortal, do eterno, do nunca e do sempre, não existe.
Quando meus ouvidos, alarmados, começaram a tatear à volta e não encontraram nada, eles começaram a tatear para dentro. E eu ouvi meu coração. Vejam só, lá dentro, eu deixei de ouvir o barulho que outras pessoas e coisas fazem para me ouvir, literalmente. Talvez um pouco metaforicamente também: milhares de pensamentos cascatearam, esbarraram, ricochetearam.
Sensação estranha. Até sei que “as estrelas não fazem barulho”, mas meu pensamento grita. E eu, que ainda não sei muito bem o que fazer para socorrê-lo, para socorrer-me, distraio-me com outros sons: a sinfonia dos ponteiros, das buzinas, dos passos na escada, das cantigas de roda, das mentiras sinceras consola-me; nina uma parte de mim que eu escondo, que eu temo, que eu rejeito.
Desconfio que o silêncio também tenha parentescos com a loucura: uma parte de mim se matou (com um punhal, para não fazer barulho). Um minuto em memória de mim eram dez minutos em minha memória, porque o tempo quase que inexiste no silêncio. O tempo gotejava e eu jorro, tenho pressa, pressa! E com pressa renasci de mim, ato tão rotineiro, mas tão solene daquela vez.
“Silêncio absoluto não existe!” sussurrou-me algum eu. Não mesmo. Se eu prestar atenção, consigo ouvir a melodia que sai de mim. Se você disser que eu desafino, amor...
E eu voltei a ouvir...

Divagações e bobagens à parte, a exposição na Oca sobre a Bossa Nova é linda. Imaginem que tem um mar no teto! E nem chove... Quanto ao resto, nem sei. O resto é (...) tudo o que eu não sei contar...

sábado, 5 de julho de 2008

Ela

Então Ela olhou pela janela e, vendo qualquer coisa que a fizesse lembrar-se de uma presença passada, – via para fora ou para dentro? – sorriu. A Mulher a seu lado, já cansada e quase invejando a felicidade daquele sorriso, inclinou-se um pouco para frente e procurou aquele indefinido no quadro recortado pela janela: nada achou. A paisagem correu – será que fugiu por ter cometido algum crime? –, a Mulher continuou procurando por alguns instantes, mas, dando-se por vencida, voltou a recostar-se no banco. Ainda olhou para Ela com um olhar quase acusador, mas tudo foi muito rápido, o tudo saiu correndo atrás da paisagem e deixou-a pensando sozinha e cansada – tão, tão cansada – em todas as suas tarefas do dia seguinte.

A Senhora, que se levantava porque seu ponto já estava quase chegando, achou o sorriso perdido no rosto da menina e, boa doutora que era – só não conseguia emprego no ramo por uma dessas coisas inexplicáveis da vida. Em vez disso, ocupava-se em fazer os doces mais gostosos do mundo dos netos, cuidar do casal de canarinhos Mene e Dina e acompanhar fervorosamente a novela das seis – boa doutora que era, logo diagnosticou: está apaixonada. Teve, então, doces lembranças e, antes de descer do ônibus, ainda sorriu agradecida para Ela, que, não entendendo muito bem a razão daquele sorriso, mas, porque estava mesmo feliz, sorriu de volta, ainda inconsciente de seu diagnóstico. Aquele sentimento estranho subindo e descendo em seu peito a fez suspirar. E Ela descobriu: então é por isso que aquele doce – tão, tão doce! – feito de açúcar e ovo se chama suspiro! Ficou com vontade de gargalhar com a descoberta, mas, com certo receio da Mulher sentada a seu lado, mordeu os lábios, os olhos faiscando.

(Quando desceu do ônibus, Ela, descuidada que andava, tropeçou nas nuvens, caiu em frente a um espelho qualquer e percebeu, um tanto assustada: Ela não era ela, Ela era eu.)


(26/03/08)