Quando meus ouvidos, alarmados, começaram a tatear à volta e não encontraram nada, eles começaram a tatear para dentro. E eu ouvi meu coração. Vejam só, lá dentro, eu deixei de ouvir o barulho que outras pessoas e coisas fazem para me ouvir, literalmente. Talvez um pouco metaforicamente também: milhares de pensamentos cascatearam, esbarraram, ricochetearam.
Sensação estranha. Até sei que “as estrelas não fazem barulho”, mas meu pensamento grita. E eu, que ainda não sei muito bem o que fazer para socorrê-lo, para socorrer-me, distraio-me com outros sons: a sinfonia dos ponteiros, das buzinas, dos passos na escada, das cantigas de roda, das mentiras sinceras consola-me; nina uma parte de mim que eu escondo, que eu temo, que eu rejeito.
Desconfio que o silêncio também tenha parentescos com a loucura: uma parte de mim se matou (com um punhal, para não fazer barulho). Um minuto em memória de mim eram dez minutos em minha memória, porque o tempo quase que inexiste no silêncio. O tempo gotejava e eu jorro, tenho pressa, pressa! E com pressa renasci de mim, ato tão rotineiro, mas tão solene daquela vez.
“Silêncio absoluto não existe!” sussurrou-me algum eu. Não mesmo. Se eu prestar atenção, consigo ouvir a melodia que sai de mim. Se você disser que eu desafino, amor...
E eu voltei a ouvir...
Divagações