Menina, por favor, não se aflija com o meu aparente não-estar. Confesso que me escondo dentro de seus sonhos para melhor poder ouvir os seus suspiros em verso, suas falas em dança: a companhia inocente de sua solidão. Mas não é para te fazer sofrer, menina, não é. Prometo que volto e devolvo suas asas, menina, e as nuvens se abrirão brilhando estrelas para te ver, de mãos dadas, passar. Prometo que volto, menina, para abrir seu caminho no meio do mundo em tapete vermelho, que é para combinar com as flores em seu vestido de festa, com o carinho em seus olhos de moça, com a felicidade te fazendo mulher. Lembre-se, menina, que suas lágrimas marcam seu rosto sem marcar caminho, e que é o barulho cantante de seu riso que me orienta em sua direção. Siga tranqüila sua estrada de chão, sem medo de falsas direções, que, quando o destino me trouxer de volta, fugiremos juntos do tempo que me levou.
Não sou Alice nenhuma: por todo lado o coelho me segue. Não quero olhá-lo, mas o que mais posso fazer se é seu brilho que me ilumina na solidão da noite escura? Tenho ouvido chamarem meu nome ao longo de todo esse dia e sequer enxergo quem me chama. Mas, atravessando a rua, senti: meu perfume com um cheiro que eu nem conheço mais.
Peço desculpas pela ausência: sei que, num mundo de vazios, qualquer palavra é consolo e companhia. Eu tenho estado leve e só não voo mais porque o sono tem me levado a sabe Deus que lugar sem sonhos. Tudo o que faço, então, é inventar o que vejo para que os outros acreditem que há esperança lá fora. Tudo é tão pouco, tão escasso, mas o nada é vasto e recobre a imensidão celeste e a finitude marítima. Eu corri, fugindo do que eu já sabia que me alcançaria, para contar: o mar é ainda maior do que o céu e os anjos estão todos submersos. Não sei o que significa, não me importo, já foi dito, posso parar de correr. Estou tão cansada. Quando eu parar, mais uma vez dormirei sem sonhos naquilo que vem antes do mundo, do verbo. É injusto e patético guardar tudo em frasquinhos, ainda que em troca de pão e carinho.
Não sou estrela nenhuma: meu suspiro luminoso só mostra aos navegantes o caminho da perdição. Atraio borboletas: as brancas e mortas compõem a minha coroa: faço o que posso para que seja a Morte uma de minhas súditas (para esconder a sete palmos que sou escrava de outras passagens, até mais cruéis).
Renuncio a meu trono de imperatriz. Renuncio ao mundo das delicadas colorações. Renuncio ao que sobra de mim após cada dia interminável tombando em cascata amarela – posso viver bem sem mim.
A primeira lembrança que tenho de uma festa de aniversário é assim: um sábado de carnaval, muitas máscaras distribuídas para os convidados, um Pierrot e uma Colombina desenhados em isopor pela minha mãe (que é artista nas horas vagas) e colados na parede, lindos: ele chorando, ela de costas para ele, felicíssima. Era o aniversário da minha irmã, mas a festa era dupla: nossa. Naquela mesma noite, depois de tudo, minha mãe nos contou a história do triângulo amoroso da Commedia dell' arte que foi se misturando, à medida que meu sono chegava, às histórias de outros carnavais: meu avô soprando as notas de sax que caiam sobre os foliões da infância de minha mãe coloridas feito confete; minha mãe que corria pelo salão pulando, brincando, dançando de um jeito tão livre que dava quase quase para se sentir adulta. Principalmente – e essa sim era a alegria da coisa toda – porque só durante aquela festa que mais parecia mentirinha, ela podia cantar todas as marchinhas de batom. Batom vermelho.
Durante dois ou três carnavais, meus pais levavam a mim e à minha irmã a um bailinho aqui no bairro mesmo. Éramos muito novas, mas me lembro muito bem da alegria em meio a tanta bagunça, serpentina, brilhos e tules das nossas fantasias de fada, princesa ou baiana. E não chovia água, só confete: o calor, meu Deus, que calor.
Mas tudo isso faz muito tempo e já não há mais histórias como essas. Hoje é segunda de carnaval e tudo o que tenho a contar é: choveu. Muito. Fiquei no carro, a caminho do dentista, imaginando quantas fantasias de crepom e quantas maquiagens terão derretido e transformado a rua numa imensa aquarela. Talvez, nenhuma. Não me entusiasmo muito com carnaval nenhum e estou até feliz que esse ano não tenha batuque do lado de casa, o que é esquisito depois de tudo: o que será que mudou, o carnaval ou eu?
Resta-me ir atrás de um saquinho de Confeti – sim, o de chocolate – e esperar que minha mãe (que, escondida em casa, é cantora nas horas vagas) entoe alguma marchinha. Quem foi mesmo que disse que todo carnaval tem seu fim?