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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ouvi dizer que as formigas são surdas

Formigas. Uma, duas, três. Formigas formigas formigas: em fila para não sei que lugar. Queria ser pequenina e me juntar a elas. Formiga formiga eu formiga. Rumo a doçuras várias. Açúcares, balas, melado de achocolatado na mesa. Em fila: um, dois, um, dois. Escalando o armário, subindo, subindo, subindo sem fim.

(Na casa ao lado, há uma menina que joga água nas formigas da pia e as assiste morrer. Água com açúcar não acalma e a pia vira mar. Já as aconselhei, mas nenhuma delas me ouve – ouvi dizer que as formigas são surdas.).

Falta pouco, acho que já estou até diminuindo. Enquanto ainda posso ouvir, diga-me uma palavra doce para que eu não precise enfrentar os perigos da pia, dos pés humanos, das coisas tão maiores que eu e que eu não entendo. Diga-me uma palavra para que eu me baste humana e não precise virar mais nada. Esconda o segredo mágico e deixe-me viver mais um pouco nesse mundo que não é meu!


(Porque estou diminuindo e, se ainda ouço, é porque meu silêncio procura sua voz).

sábado, 21 de março de 2009

Azul

"(...) aquele azul que deslumbrava e endoidecia a gente."
Graciliano Ramos

De repente olhou para o céu e viu, quase prendendo a respiração: aquele azul. Tão transparente, por um momento achou que talvez conseguisse enxergar o Paraíso e os anjos. Deus. E teve medo. Mas não podia mais desviar os olhos, tarde demais, azul azul-hipnótico, azul néon, azul-celeste? Tentou prender a atenção nas nuvens, mas eram poucas e se moviam rápido, apesar da brisa suave. Desenho nenhum, algodão algodão-doce. Espuma. Se chovesse naquele momento, ela tinha certeza, choveriam bolhinhas de sabão. Ah, como seria bom! O céu se coloriria de rosa, amarelo e verde e aquele azul... (azul baú, azul mistério) pararia de olhar para dentro dela, azul distraído. Mas ia demorar a chover, dias até, dia tão bonito: não havia trégua possível e ela estava perdida e para sempre. Descoberta. Segurou muito forte na janela e soube que se soltasse seria o fim. Azul água, azul mar. Chegando em ondas até ela através do espaço, o mundo de ponta cabeça, quando foi que. Quando? Mas nenhuma resposta mais era importante, azul-pergunta, azul-resposta, azul-azul. O amor é azul, ela lembrou. E já sem medo, embalada pela quase-maré – impulso – soltou-se e deixou-se mergulhar no azul, azul-oceano, azul-naufrágio, azul-redenção, azul-infinito. E voou.


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Últimas Palavras

Estava cansada. Fechou os olhos e desejou, meio que por hábito, que não acabasse daquele jeito. Já era tarde. Abriu os olhos e, vendo todas aquelas pessoas, percebeu que precisava tentar explicar-se, mesmo que ninguém fosse ouvi-la. Tentar fazer contato. A assombração: já se sentia um quase-espírito – fantasma sempre fora. Mas não fazia sentido algum começar o que quer que fosse tão perto do fim – perto, perto, perto... –, então, continuou:

─ só sei que dói. E eu não quis mais saber de nada disso, não queria mais esperanças, não quis mais desejar desesperadamente em silêncio. Quis me livrar de todas as minhas convicções (todas inúteis) como quem arranca a roupa e fica nu. Com a avidez dos que, após um longo período sem água, encontram um lago, uma fonte. Com a voracidade dos esfomeados. Essa eterna seca. Essa fome árida. Mas, eu dizia, ficar nua de minhas convicções. Imoral! Não me importar, ser livre. E me afoguei no primeiro que me deu consolo, no primeiro. Eu não pude esperar mais. Puta. Não quis, não pude. Tudo o que eu queria era acreditar no primeiro que dissesse que me amava, acreditar com uma inocência infantil, de anjos desnudos. E responder ‘eu também te amo!’ sem mentir. Sem mentir mais... Um amor inventado de última hora para passar o tempo depois que se cansou das bonecas e dos carrinhos. Trocar carrinhos por carinhos. Brincar sem doer. Sem compromissos, sem ser responsável pelo outro. Irresponsável! E nem por mim. Descontrolada! É, descontrolada, por que não? Não quis mais, já chega de controle! Já chega. Quis dar abrigo ao primeiro que eu encontrasse perdido na rua; dei cama, comida. E fui envenenando com pequenas doses de arsênico. Sem culpa. Não quero mais culpa nenhuma. Quis matar por prazer. Sádica. Sem pressa, sem a menor pressa. Premeditada! E depois chorei, chorei de verdade por me ver sozinha de novo. Cínica. Pensei: ‘quem foi que fez uma coisa horrível dessas?’ sem nem me dar conta de mim. Esqueci-me entre as outras. E chorei, chorei tanto por me sentir perdida. Esperei muito, muito tempo por alguém que me achasse, me desse abrigo, cama, comida. E um pouco de veneno. Mas ninguém veio. Quis me esquecer de tudo quando vi uma borboleta amarela brincar no ar... Uma vez escrevi um verso, um único, algo como: ‘suas asas sussurravam doces segredos sobre a brisa suave’, mas isso foi há muito tempo, quando eu ainda tinha pretensões de poeta. Foi ontem, ontem! Dizem que antes de morrer a nossa vida inteira passa diante de nossos olhos. ‘Desesperadamente em silêncio’, ‘só sei que dói’...

─ Fim.

sábado, 5 de julho de 2008

Ela

Então Ela olhou pela janela e, vendo qualquer coisa que a fizesse lembrar-se de uma presença passada, – via para fora ou para dentro? – sorriu. A Mulher a seu lado, já cansada e quase invejando a felicidade daquele sorriso, inclinou-se um pouco para frente e procurou aquele indefinido no quadro recortado pela janela: nada achou. A paisagem correu – será que fugiu por ter cometido algum crime? –, a Mulher continuou procurando por alguns instantes, mas, dando-se por vencida, voltou a recostar-se no banco. Ainda olhou para Ela com um olhar quase acusador, mas tudo foi muito rápido, o tudo saiu correndo atrás da paisagem e deixou-a pensando sozinha e cansada – tão, tão cansada – em todas as suas tarefas do dia seguinte.

A Senhora, que se levantava porque seu ponto já estava quase chegando, achou o sorriso perdido no rosto da menina e, boa doutora que era – só não conseguia emprego no ramo por uma dessas coisas inexplicáveis da vida. Em vez disso, ocupava-se em fazer os doces mais gostosos do mundo dos netos, cuidar do casal de canarinhos Mene e Dina e acompanhar fervorosamente a novela das seis – boa doutora que era, logo diagnosticou: está apaixonada. Teve, então, doces lembranças e, antes de descer do ônibus, ainda sorriu agradecida para Ela, que, não entendendo muito bem a razão daquele sorriso, mas, porque estava mesmo feliz, sorriu de volta, ainda inconsciente de seu diagnóstico. Aquele sentimento estranho subindo e descendo em seu peito a fez suspirar. E Ela descobriu: então é por isso que aquele doce – tão, tão doce! – feito de açúcar e ovo se chama suspiro! Ficou com vontade de gargalhar com a descoberta, mas, com certo receio da Mulher sentada a seu lado, mordeu os lábios, os olhos faiscando.

(Quando desceu do ônibus, Ela, descuidada que andava, tropeçou nas nuvens, caiu em frente a um espelho qualquer e percebeu, um tanto assustada: Ela não era ela, Ela era eu.)


(26/03/08)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O Travesseiro de Marina

(Texto escrito enquanto eu estava com uma certa música na cabeça e esperava a professora de Lingüística chegar do intervalo. E ela sempre se atrasa, fica aqui o meu protesto.)

Só escrevo a caneta porque já guardei a lapiseira e achei a caneta subitamente, adormecida em cima de minha cama. Vamos, acorde, vá para o seu canto! – foi o que eu disse um pouco irritada a ela. Sei que vou deitar e não conseguir dormir, é pura inveja, admito. E eu preciso tanto dormir! Para esquecer, para fugir dos sonhos que tenho quando acordada e que me cansam tanto. Eu correria quilômetros se pudesse fugir. Como não posso, paraliso-me: pura impotência e medo me paralisam.

Ouve os grilos? Até os relógios pararam, apenas meu coração bate: doze badaladas, fez-se meia-noite dentro de mim. Então, uso a escuridão do quarto para me iluminar por dentro, é lá que está o meu medo de escuro. Mas de dentro eu não posso fugir.

Ah, o que foi que aconteceu? Logo eu que havia construído tantas paredes, muros, grades para me proteger... Custa derrubá-los, mas me dizem que é preciso, meu Deus, o medo de me roubarem de novo. De me roubarem de mim. Eu que tinha tantas paredes (todas adornadas para criar um ambiente agradável), tive de me despir. Céus, estou nua e me obrigo a atravessar a rua. A vergonha, o medo, o frio. Ninguém aponta, mas eu posso ouvir o riso, têm pena de mim. Mas dizem-me: é preciso. Digo-me, sussurrando, convencendo-me: é preciso, é preciso, é preciso...

Um peixe. E mais outro. Todos coloridos! A água é azul e eu moro em um navio que afundou há milhares de anos. Alguém diz: “’Milhares de anos’ não existe! Só existe o presente”. Onde estou, então? Perdida. Peço informação à sereia de cabelos verdes e ela começa a cantar: “Se eu fosse um peixinho / e soubesse nadar / eu tirava a Marina / do fundo do mar”. Não, não, por favor!

Nunca havia respirado, acho que vou sufocar com todo esse ar. Mas não posso mais voltar, é tarde. Os passarinhos comeram todo o pão que usei para marcar o caminho. Espere, não era pão, era pedra! Pedrinhas que caíram de meus olhos quando tentei chorar. É que meu coração se quebrou... Talvez ainda dê para consertar, não sei, ainda não tive coragem de olhar. Estou com frio... E acho que vai começar a chover. Um pingo, outro pingo, outro... Mas não são pingos, são pétalas! Pétalas de rosas colombianas. Co-lom-bi-a-nas. Rosas colombianas para a Colombina! Ah, Pierrot, Pierrot... Não chores mais, não chores! Vê, as rosas são vermelhas e abrem-se em um sorriso... É tempo de festa, querido, é carnaval!

Alguém canta uma cantiga e crianças dançam em rosa (ou roda?): “Se essa rua, se essa rua fosse minha / Eu mandava, eu mandava ladrilhar / Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante / Para o meu, para o meu amor passar”. E essa rua que não acaba nunca de ser atravessada? É preciso. É preciso que eu


─ Marina? Vamos, Marina, acorde, vá para a sua cama! Você dormiu de novo em cima do caderno...

-Thamires Araujo

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Morangos

Em frente ao espelho, eu penteava meu cabelo. Decidi de repente, muito rápido para não desistir: coloquei um laço e bati na porta da casa dele. SURPRESA! (Aposto que não era assim tão surpresa, mas se eu fosse explicar, provavelmente gaguejaria ou falaria rápido demais e gesticulando muito, ele não entenderia... Nem eu, na verdade). Então, lentamente, ele puxou a minha fitinha vermelha por uma das pontas, desfez o laço, o nó, as amarras... E me abriu. De um jeito tão natural que eu quase não me dei conta: a alma estrelando o chão, o coração escancarado de um jeito quase obsceno, o sorriso aberto – era meu ou dele? ‘Espelho meu, meu riso é seu’, tive vontade de cantar. De gritar.

Sim, a nuvem negra havia passado e graças à luz do sol eu reparei: o que ele usava no pescoço todas as vezes em que conversávamos não era uma gravata-borboleta, mas um laço, como o meu. Toda aquela aparência séria, por vezes superior, e que, às vezes, me intimidava tanto, era pura ilusão, era entrega (ou medo de). Com todo cuidado, como se estivesse mesmo segurando uma borboleta pela asa, segurei a ponta da fita azul e puxei, devagarzinho... Ele também se abriu: coração e sorrisos abertos, toda, toda a alma livre. Leve. Suas mãos abertas fechei com as minhas; meus olhos abertos fecharam-se com um beijo. Senti gosto de morango... Seria tempo de morangos? Voltamos a nos fechar, mas, dessa vez, com o outro dentro de si. E o vazio desapareceu. Ó céus, estar em queda-livre deve ser exatamente assim. Lá estava eu, caindo, sem rede de proteção, sem pára-quedas, segura apenas por aquele novo laço. Com o outro dentro de mim. Segura. Caindo, caindo, caindo...

***

Acordei assustada, como odeio sonhar que estou caindo! Uma preguiça gostosa me prendia à cama, mas acabei levantando. O chão frio sob meus pés animou-me, uma alegria imensa! Vontade de dançar. Saí rodopiando do quarto, fingindo não ver as fitas caídas ao pé da cama, passado. Penteei os cabelos e arranquei uma flor do primeiro vaso que vi para enfeitá-los, enfeitaria minha casa inteira, compraria muitas, muitas flores! E morangos.

- Thamires Araujo