Só escrevo a caneta porque já guardei a lapiseira e achei a caneta subitamente, adormecida em cima de minha cama. Vamos, acorde, vá para o seu canto! – foi o que eu disse um pouco irritada a ela. Sei que vou deitar e não conseguir dormir, é pura inveja, admito. E eu preciso tanto dormir! Para esquecer, para fugir dos sonhos que tenho quando acordada e que me cansam tanto. Eu correria quilômetros se pudesse fugir. Como não posso, paraliso-me: pura impotência e medo me paralisam.
Ouve os grilos? Até os relógios pararam, apenas meu coração bate: doze badaladas, fez-se meia-noite dentro de mim. Então, uso a escuridão do quarto para me iluminar por dentro, é lá que está o meu medo de escuro. Mas de dentro eu não posso fugir.
Ah, o que foi que aconteceu? Logo eu que havia construído tantas paredes, muros, grades para me proteger... Custa derrubá-los, mas me dizem que é preciso, meu Deus, o medo de me roubarem de novo. De me roubarem de mim. Eu que tinha tantas paredes (todas adornadas para criar um ambiente agradável), tive de me despir. Céus, estou nua e me obrigo a atravessar a rua. A vergonha, o medo, o frio. Ninguém aponta, mas eu posso ouvir o riso, têm pena de mim. Mas dizem-me: é preciso. Digo-me, sussurrando, convencendo-me: é preciso, é preciso, é preciso...
Um peixe. E mais outro. Todos coloridos! A água é azul e eu moro em um navio que afundou há milhares de anos. Alguém diz: “’Milhares de anos’ não existe! Só existe o presente”. Onde estou, então? Perdida. Peço informação à sereia de cabelos verdes e ela começa a cantar: “Se eu fosse um peixinho / e soubesse nadar / eu tirava a Marina / do fundo do mar”. Não, não, por favor!
Nunca havia respirado, acho que vou sufocar com todo esse ar. Mas não posso mais voltar, é tarde. Os passarinhos comeram todo o pão que usei para marcar o caminho. Espere, não era pão, era pedra! Pedrinhas que caíram de meus olhos quando tentei chorar. É que meu coração se quebrou... Talvez ainda dê para consertar, não sei, ainda não tive coragem de olhar. Estou com frio... E acho que vai começar a chover. Um pingo, outro pingo, outro... Mas não são pingos, são pétalas! Pétalas de rosas colombianas. Co-lom-bi-a-nas. Rosas colombianas para a Colombina! Ah, Pierrot, Pierrot... Não chores mais, não chores! Vê, as rosas são vermelhas e abrem-se em um sorriso... É tempo de festa, querido, é carnaval!
Alguém canta uma cantiga e crianças dançam em rosa (ou roda?): “Se essa rua, se essa rua fosse minha / Eu mandava, eu mandava ladrilhar / Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante / Para o meu, para o meu amor passar”. E essa rua que não acaba nunca de ser atravessada? É preciso. É preciso que eu
─ Marina? Vamos, Marina, acorde, vá para a sua cama! Você dormiu de novo em cima do caderno...
-Thamires Araujo
O texto ficou liiindo!
ResponderExcluirEspecialmente esse parágrafo:
"Nunca havia respirado, acho que vou sufocar com todo esse ar..."
Nossa, quantas cantigas e musiquinhas que recordam a infância... Esse é um dos motivos porque eu adoro seus textos! \o
s2
:***
Fiquei com curiosidade em saber qual música vc estava na cabeça...
ResponderExcluirTantas cantigas de roda e essa mistura de contos infantis, acho que a menina anda apaixonada, sonhando com um conto de fadas... mas não querendo ser a madrasta má, mas não se iluda! Amor tem que ser bem real. Amor de sonho, só dói...
Bjs!