segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Camélia que Morreu

À Neuza de Jesus Silva Araujo, com carinho


A primeira lembrança que tenho de uma festa de aniversário é assim: um sábado de carnaval, muitas máscaras distribuídas para os convidados, um Pierrot e uma Colombina desenhados em isopor pela minha mãe (que é artista nas horas vagas) e colados na parede, lindos: ele chorando, ela de costas para ele, felicíssima. Era o aniversário da minha irmã, mas a festa era dupla: nossa. Naquela mesma noite, depois de tudo, minha mãe nos contou a história do triângulo amoroso da Commedia dell' arte que foi se misturando, à medida que meu sono chegava, às histórias de outros carnavais: meu avô soprando as notas de sax que caiam sobre os foliões da infância de minha mãe coloridas feito confete; minha mãe que corria pelo salão pulando, brincando, dançando de um jeito tão livre que dava quase quase para se sentir adulta. Principalmente – e essa sim era a alegria da coisa toda – porque só durante aquela festa que mais parecia mentirinha, ela podia cantar todas as marchinhas de batom. Batom vermelho.

Durante dois ou três carnavais, meus pais levavam a mim e à minha irmã a um bailinho aqui no bairro mesmo. Éramos muito novas, mas me lembro muito bem da alegria em meio a tanta bagunça, serpentina, brilhos e tules das nossas fantasias de fada, princesa ou baiana. E não chovia água, só confete: o calor, meu Deus, que calor.

Mas tudo isso faz muito tempo e já não há mais histórias como essas. Hoje é segunda de carnaval e tudo o que tenho a contar é: choveu. Muito. Fiquei no carro, a caminho do dentista, imaginando quantas fantasias de crepom e quantas maquiagens terão derretido e transformado a rua numa imensa aquarela. Talvez, nenhuma. Não me entusiasmo muito com carnaval nenhum e estou até feliz que esse ano não tenha batuque do lado de casa, o que é esquisito depois de tudo: o que será que mudou, o carnaval ou eu?

Resta-me ir atrás de um saquinho de Confeti – sim, o de chocolate – e esperar que minha mãe (que, escondida em casa, é cantora nas horas vagas) entoe alguma marchinha. Quem foi mesmo que disse que todo carnaval tem seu fim?

5 comentários:

  1. Nossa, deu até vontade de me infiltrar na casa da Thami pra flagrar um desses momentos de artista da Dona Neuza!

    :D

    É legal mesmo lembrar esses momentos da infância... Dá uma saudadee!

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  2. Thami, eu até me emocionei ao ler esta passagem dos melhores momentos da minha vida.Até porque, são momentos que vivem dentro de mim com tamanha realidade que, de repente me vejo com o batom vermelho, pulando e vomitando uma alegria pura,ingênua e sem responsabilidades.Hoje, infelizmente, tudo passou, as notas musicais que meu pai soltava no salão estão somente soltas nas minhas lembranças.Tenho somente a arte( que cá entre nós, estão abandonadas),que um dia serão marcas, assim como foi o aniversário,o carnaval,o confeti numa bexiga enorme,os cabelos embaralhados,a juventude. bjus....

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  3. Lembranças alegres de infância são coisas boas. Deu até para sentir a alegria dos momentos narrados.
    Valorizo muito esses momentos que ficam guardados em nós, pois quase não tenho lembranças de minha infância, como esqueço quase tudo que leio e dos filmes também (acho que tenho problemas... rsrs)

    Sobre o seu comentário lá no Poesia em Blog, não posso opinar, pois não vi O Rei Leão. Mas verei e depois te falo :).

    Adorei o texto. Beijos.

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  4. Nhaaá Thaamii,
    Que maaior liindo, você tem mesmo um dom meeniina *-*

    Me cairam as lágrimas, nem sabendo bem o pq oO Mas sabe que só você consegue escrever de um jeito tão mágico :)

    Beeijo :**

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  5. Quem disse que 'todo carnaval tem seu fim' foram os Los Hermanos, mas será que a culpa não é da fronteira adulta que todos atravessamos? Ou é o mundo que cresceu e ficou aborecido demais? Também sinto falta dessa ingenuidade bonita dos dias que se perderam debaixo dos confetes. Ai, ai...

    Beijos linda! ;)

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